Explicações sobre ausência da BCOM na ocorrência são necessárias para que eventuais problemas burocráticos não voltem a impedir o socorro dos bombeiros a situações de emergência
Ricardo Nogueira | da Redação
O incêndio que destruiu o tradicional Mercado Balbino, na madrugada de terça-feira (23), em Arapeí, deixou não apenas um rastro de prejuízos materiais e emocionais para a família proprietária do estabelecimento. O episódio também levanta um questionamento que precisa ser respondido pelas autoridades competentes: por qual motivo a Base Comunitária dos Bombeiros (BCOM) de Bananal não atendeu a ocorrência?
Enquanto moradores acompanhavam apreensivos o avanço das chamas, voluntários e integrantes da Defesa Civil de Arapeí passaram horas combatendo o fogo, conseguindo evitar que o incêndio atingisse imóveis vizinhos. Somente após mais de duas horas chegaram os caminhões do Corpo de Bombeiros deslocados de Cruzeiro para assumir a ocorrência.
A distância entre Bananal e Arapeí é de pouco menos de 20 quilômetros. Já o deslocamento de equipes de Cruzeiro exige um tempo significativamente maior para percorrer uma distância aproximada de 80 quilômetros. Justamente por essa realidade foi criada a Base Comunitária dos Bombeiros de Bananal.
Inaugurada em 23 de junho de 2022, a BCOM foi apresentada como uma estrutura destinada a atender o subgrupamento de municípios do extremo leste do Vale Histórico, com a missão de coordenar ações de primeira resposta a emergências e atuar na gestão de riscos e desastres em sua área territorial. (clique aqui para ver a matéria sobre a inauguração da base)
A Gazeta de Bananal apurou preliminarmente que, salvo eventual problema mecânico nos veículos da base — hipótese que até o momento não foi confirmada oficialmente —, uma questão burocrática pode ter impedido o atendimento.
Segundo uma fonte ouvida pela reportagem, até o ano passado brigadistas habilitados podiam conduzir os veículos da BCOM para atendimento das ocorrências. Entretanto, desde dezembro uma norma teria passado a exigir que somente bombeiros militares conduzam o caminhão e a caminhonete da unidade. Paralelamente, a Prefeitura de Bananal teria sido comunicada sobre a necessidade de recadastramento e atualização dos treinamentos dos voluntários vinculados ao programa.
Caso essa informação seja confirmada, a situação causa perplexidade.
É difícil compreender como uma estrutura criada justamente para dar rapidez ao atendimento regional deixa de atender uma ocorrência grave a poucos quilômetros de distância por conta de entraves administrativos. A própria razão de existir da BCOM é evitar que municípios como Arapeí dependam exclusivamente de equipes deslocadas de cidades mais distantes, onde o tempo de resposta inevitavelmente é maior.
A composição das Bases Comunitárias de Bombeiros ocorre por meio de convênio com a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, dentro do Programa de Cooperação de Bombeiros Públicos Voluntários na Primeira Resposta às Emergências. O modelo foi concebido exatamente para ampliar a capacidade de atendimento em municípios de pequeno porte, sob coordenação do Corpo de Bombeiros da Polícia Militar do Estado de São Paulo (CBPMESP).
Diante disso, a ausência da BCOM em uma ocorrência de grande relevância regional merece explicações claras.
Outra informação obtida pela reportagem junto a uma fonte ligada ao sistema é que a atuação operacional da Base Comunitária dos Bombeiros estaria, na prática, restrita ao horário comercial. Se confirmada oficialmente, a situação levanta ainda mais questionamentos sobre a efetividade do modelo atualmente adotado. Emergências, incêndios, acidentes e desastres não seguem horário de expediente.
Uma estrutura concebida para garantir primeira resposta rápida à população precisa estar preparada para atuar justamente nos momentos mais críticos, que muitas vezes ocorrem durante a madrugada, finais de semana e feriados. Caso exista essa limitação operacional, é necessário que os órgãos responsáveis esclareçam à população quais são as reais condições de funcionamento da BCOM e quais medidas serão adotadas para assegurar atendimento eficiente aos municípios da região.
A Gazeta de Bananal está encaminhando questionamentos ao Comando do Corpo de Bombeiros e aguarda posicionamento oficial sobre os motivos que impediram o deslocamento da base de Bananal para Arapeí.
O episódio evidencia a necessidade de reavaliar procedimentos que possam comprometer a agilidade do socorro. Se existem pendências cadastrais ou operacionais envolvendo voluntários, elas precisam ser resolvidas com urgência pela Prefeitura de Bananal, em tese, a responsável por atender exigências dos Bombeiros para o funcionamento adequado da BCOM. O que não parece razoável é que uma estrutura criada para oferecer resposta rápida deixe de atuar justamente quando a população mais precisa.
Episódios como o ocorrido no incêndio do Mercado Balbino precisam ser apurados com seriedade e transparência, não em busca de culpados, mas principalmente para identificar falhas, corrigir procedimentos e evitar que situações semelhantes voltem a acontecer.
Quando uma emergência expõe possíveis limitações operacionais ou burocráticas no sistema de resposta, o interesse público exige uma avaliação criteriosa dos fatos. O objetivo deve ser o aperfeiçoamento do atendimento e a garantia de que, em futuras ocorrências, a população possa contar com uma resposta rápida, eficiente e compatível com a missão para a qual a Base Comunitária dos Bombeiros foi criada.
O fogo que consumiu o Mercado Balbino mostrou, mais uma vez, que o socorro precisa estar disponível quando a tragédia acontece — e não apenas quando a burocracia permite.
A população de Arapeí, Bananal e do Vale Histórico merece uma resposta.

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