Vídeo divulgado por William Landim, o "da Silva", rebate postagem nas redes sociais, questiona motivações da autora e atribui situação a gestões anteriores, embora administração atual já esteja há cinco anos e meio no comando do município
Ricardo Nogueira | da Redação
Uma publicação feita por uma moradora de Bananal mostrando o estado do pátio do Solar Aguiar Valim, ocupado por veículos sucateados, motivou uma longa resposta em vídeo do prefeito William Landim da Silva. No entanto, embora tenha dedicado vários minutos para rebater a crítica, o prefeito não anunciou nenhuma medida concreta para solucionar exatamente o problema denunciado pela internauta.
A postagem original limitava-se a expor uma realidade visível a qualquer cidadão: o pátio de um dos mais importantes patrimônios históricos do município continua sendo utilizado como depósito de veículos inservíveis, em pleno centro da cidade, ao lado da Praça Rubião Júnior e a poucos metros da maior escola da rede municipal.
No vídeo, William Landim DA SILVA afirma que o portão do Solar é "completamente vazado" e que qualquer pessoa pode ver os veículos do lado de fora. Em seguida, passa a apresentar cada um dos automóveis e máquinas existentes no local, titubeando sobre o estado de conservação de alguns deles.
Em vez de responder objetivamente quando aqueles veículos serão retirados do pátio do Solar, o prefeito direciona boa parte de sua manifestação para destacar realizações de seu governo, como pavimentação de ruas, construção e inauguração de unidades de saúde, cirurgias de catarata, construção da nova escola e futuras obras na antiga Estação Ferroviária.
Embora todas essas ações possam integrar o balanço administrativo da gestão, elas não respondem à questão levantada pela moradora: por que um patrimônio histórico continua servindo como depósito de sucata?
Questionamentos à autora da postagem
Outro aspecto que chamou atenção foi o tom adotado pelo prefeito.
Durante a gravação, "da Silva" questiona se a autora da publicação teria operado de catarata "só agora" para enxergar o problema e levanta hipóteses, sem apresentar qualquer evidência, de que ela poderia ser ligada politicamente a ex-prefeitos adversários.
Em diversos momentos, afirma não saber se existe esse vínculo, mas ainda assim passa a especular sobre as motivações da moradora, sugerindo que ela somente teria decidido publicar a imagem por razões políticas.
Também associa comentários feitos na postagem a antigos prefeitos, ex-vereadores e adversários políticos, desviando o foco da discussão sobre o estado do Solar Aguiar Valim.
Não é a primeira vez que "da Silva" responde a críticas direcionadas à sua administração atribuindo-lhes motivações político-partidárias ou insinuando perseguição promovida por adversários. Em vez de enfrentar objetivamente o mérito das cobranças, a estratégia recorrente tem sido questionar as intenções de quem critica o governo. Desta vez, porém, a resposta teve um tom desproporcional para uma simples manifestação de uma cidadã preocupada com um patrimônio histórico de Bananal.
Reconhecimento de que a própria gestão levou sucatas ao Solar
Um dos trechos mais relevantes do vídeo é justamente aquele em que o prefeito reconhece que parte dos veículos atualmente armazenados no Solar foi levada para lá durante sua própria administração.
Segundo William da Silva, diversas carcaças estavam armazenadas no antigo barracão da garagem municipal, onde atualmente está sendo construída uma escola em parceria com o Governo de São Paulo.
Como o espaço precisou ser desocupado para a obra, esses veículos foram transferidos para o pátio do Solar Aguiar Valim.
Na prática, o prefeito confirma que sua gestão apenas mudou as sucatas de lugar, utilizando o espaço de um imóvel histórico como novo depósito. Ou seja, ele é mais um a achar normal que o pátio do Solar vire depósito de sucatas.
Problema continua sem solução
William "da Silva" também admite que precisa retirar os veículos dali.
"Eu preciso mexer nisso aqui? Preciso. Preciso tirar daqui."
Em seguida, porém, afirma que a solução é complexa porque administrações anteriores não transferiram os veículos para o patrimônio municipal antes de eles se tornarem sucata, o que teria dificultado a realização de leilões.
A explicação, entretanto, levanta uma questão cronológica.
As gestões anteriores às quais o prefeito atribui responsabilidade tiveram quatro anos de duração cada uma.
Já William "da Silva" está no exercício do cargo há aproximadamente cinco anos e seis meses, tempo superior ao de qualquer um dos mandatos que critica individualmente.
Assim, embora atribua a origem do problema a governos passados, a permanência das sucatas no pátio do Solar durante mais de cinco anos de sua administração também passa a ser responsabilidade da gestão atual.
Leilões não resolveram a situação
O prefeito destaca ainda que sua administração já realizou leilões de aproximadamente 30 veículos herdados de administrações anteriores, incluindo um certame recente com 12 veículos que arrecadou cerca de R$ 300 mil.
Apesar disso, o vídeo demonstra que ainda permanecem diversas carcaças no Solar Aguiar Valim, o que evidencia que, embora tenham ocorrido avanços pontuais na alienação de bens inservíveis, o problema denunciado pela moradora continua existindo.
Patrimônio histórico transformado em depósito
O ponto central levantado pela publicação não diz respeito apenas à existência de veículos antigos.
A crítica recai sobre a utilização do pátio de um dos mais importantes imóveis históricos de Bananal como depósito permanente de sucatas. E o pior, o gestor, mesmo sem querer admitir, considera isso normal. Essa "normalização" é o cerne da questão.
Além do impacto visual causado por dezenas de veículos deteriorados, há preocupação com possíveis focos para proliferação do mosquito da dengue, especialmente em recipientes que possam acumular água.
Ao reconhecer que os veículos permanecem no local e ao justificar que parte deles foi levada para o Solar pela própria administração, o prefeito acaba admitindo a continuidade de uma situação que, na avaliação de diversos moradores, jamais deveria ter sido normalizada.
Crítica pública não é ataque à cidade
Ao longo do vídeo, William, o "da Silva", afirma que a publicação buscaria "desmerecer" Bananal.
Entretanto, a postagem da moradora tratava de um problema concreto e visível no espaço público.
Questionar a conservação de um patrimônio histórico, cobrar providências da administração municipal ou denunciar situações que mereçam solução fazem parte do debate democrático e do controle social exercido pelos cidadãos.
A resposta do prefeito, ao desviar o foco e concentrar-se na trajetória política de adversários, em realizações de sua gestão e em conjecturas sobre as intenções da autora da postagem, acabou deixando sem resposta a principal pergunta feita pela população: quando o pátio do Solar Aguiar Valim deixará definitivamente de ser utilizado como depósito de veículos sucateados?
Outro ponto que chamou atenção foi a tentativa do prefeito de transformar uma cobrança sobre a preservação do patrimônio público em um embate político e até de classes sociais. Em determinado momento, William Landim afirma que "as famílias de sangue azul que governaram a cidade por 100 anos" estariam incomodadas porque, segundo ele, "aqui tem um da Silva" trabalhando. A afirmação extrapola completamente a discussão proposta pela moradora e cria uma narrativa especulativa que opõe supostas elites tradicionais a um prefeito de origem popular.
Ocorre que a publicação que motivou toda a resposta não tratava de disputa política nem de origem social de quem governa, mas exclusivamente do estado do pátio do Solar Aguiar Valim. Ao recorrer a esse discurso, o prefeito desloca o debate do problema concreto para um conflito ideológico que sequer foi suscitado pela autora da postagem.
O prefeito acabou produzindo um vídeo que, paradoxalmente, reforça a crítica que pretendia rebater. Ao reconhecer que ainda precisa retirar as sucatas do local e admitir que parte delas foi levada para o Solar durante sua própria gestão, confirma que o problema permanece sem solução.
O verdadeiro ponto levantado pela moradora nunca foi quem abandonou os veículos décadas atrás, mas o fato de que um dos principais patrimônios históricos da cidade continua sendo tratado como depósito de sucatas. Enquanto a administração considerar normal que essa situação permaneça até que novos leilões sejam realizados, o problema continuará existindo.
Se o prefeito ironizou a necessidade de uma cirurgia de catarata para enxergar os veículos, talvez a metáfora sirva melhor para a própria gestão: é justamente a miopia política que impede de perceber que o centro da discussão nunca foram adversários, "famílias de sangue azul" ou disputas eleitorais, mas a preservação do Solar Aguiar Valim e o respeito ao patrimônio público de Bananal.
Para finalizar, cabe replicar a pergunta: apesar das divagações e verborragia do atual prefeito "da Silva" de Bananal, a imagem abaixo parece ou não um lixão?

